Marilene Hannud

Estilista entrou no mercado da moda há 30 anos, formada pela Faculdade Esmod de Paris, escritora do livro Mulher dos 15 aos 70 anos que conta a trajetória da vida da mulher através da moda.

Atualmente atua como Consultora de Moda e Assessoria de Imagem.

SPFW: análise sobre o maior evento de moda do país

Cinco dias, 39 marcas, novas tendências e muita gente bonita e estilosa. Terminou ontem à noite, com o desfile da Ellus, a 41ª edição da maior semana de moda do América Latina: São Paulo Fashion Week (SPFW). Realizado no Pavilhão da Fundação Bienal, no Parque do Ibirapuera reuniu em seu line-up as principais grifes brasileiras, que apresentaram suas coleções de Primavera/Verão.

Com o tema “Mãos que valem ouro”, essa edição marcou a estreia das grifes da A.Brand, À La Garçonne (com Alexandre Herchcovitch assinando looks femininos e masculinos), Amir Slama, Cotton Project, Murilo Lomas e Vix. A marca capixaba Amabilis, selecionada no projeto Top Five, realizado pelo IN-MOD em parceria com o Sebrae, também se apresentou, numa clara mostra de que a criatividade da moda brasileira está em todo lugar, basta apoio para incentivá-la.


Gostaria de fazer um apanhado geral de todos os desfiles, mas é tanta coisa para assistir e analisar que fica difícil. Meus comentários, portanto, ficarão focados nos desfiles que acompanhei com mais atenção. Ainda assim, vou me arriscar a fazer uma resumão do SPFW: espaço de criação e aberto a novas possibilidades, essa edição mais uma vez cumpriu com seu papel de ser uma plataforma para que diversas marcas inovem por meio de coleções criativas. 


De uma forma geral, foi exatamente isso que vi nesta edição: ousadia, criação maravilhosas, belos desfiles e muito estilo. Contudo, queria compartilhar um incômodo que me acomete todas as vezes que vou a desfiles nos dias de hoje: que saudade dos tempos em que as modelos eram diferentes. Explico: elas continuam lindas e deslumbrantes, mas hoje são sempre esqueléticas, com uma cara triste. Quando tinha meu ateliê cobrava isso das minhas modelos: sorriso no rosto!! 

Análise

A Iódice se inspirou no livro Happy Times, de autoria da irmã mais nova da Jackie Onassis, Lee Radziwill, para fazer sua coleção. A obra literária é praticamente toda passada na belíssima Costa Amalfitana, na Itália, e foram as cores da região – areia, azul claro, azul marinho, romã e uva – que inspiraram a estilista Simone Nunes. Ela também acrescentou o dourado, remetendo às roupas da Jackie, criando looks lindos e com muito estilo. Gostei muito da Iódice, como sempre. Foi uma coleção bem feminina, com muito jeans e o comprimento midi. As roupas me pareceram mais fluídas, prevendo um verão com visuais estilosos mesmo assim.


Outro desfile que me chamou atenção foi a da estilista mineira Glória Coelho, realizado no último dia do SPFW. Glória lançou sua primeira coleção para a G, antigo nome da sua marca, em 1974. Já nos anos 1990, com a própria grife fundada, ela criou sua segunda empresa, a Carlota Joakina, com roupas voltadas para o público jovem. Ontem, ela abusou do vinil, que apareceu nos melhores looks da coleção, criando vestidos com tiras de vinil, couro e tricô. Outra ousadia, que caiu muito bem, foram os macacões de neoprene justinhos com barras e golas de vinil. Lindos!

Na sequência, a Água de Coco apresentou uma coleção bem interessante. A dona da marca, Liana Thomaz, foi buscar na riqueza natural e cultural da floresta amazônica sua inspiração, com estampas de folhagem, vitórias régias, casas coloniais colombianas, frutas e sementes da região. Chamou atenção também a quantidade de tops no desfile: Isabeli Fontana, Aline Weber, Emanuela de Paula, Viviane Orth e Carol Ribeiro, além de Ari Westphal, Joséphine Le Tutour e Waleska Gorczevski. Outro destaque foram os brincões de pena, leves, metalizados, mas com muitas variações.


Adriana Degreas apresenta sua coleção também no segundo dia de desfiles do São Paulo Fashion Week. Conhecida por peças elegantes e que fogem do óbvio, a marca é considerada uma das principais do país na área de beachwear de luxo.
 
A inspiração de toda coleção nesta edição veio da Indochina, região sob domínio francês desde o fim do século 19 até os anos 40, que abrangia o Vietnã, Camboja e Laos. A aposta foi a mistura do glamour francês e do exotismo oriental, que resultou em peças lindas e originais. Marca registrada da grife, o grafismo nesse desfile apareceu, pela primeira vez nos modelos de Degreas, nos volumes sanfonados e nos plissados dobrados, que deram um efeito de babado aplicado manualmente sobre a lycra.

O desfile do talentoso Lino Villaventura, que abriu o último dia de SPFW, foi um espetáculo lindo e marcante. Mais ainda, a coleção foi apresentada em parceria com outros dois grandes nomes do mundo da moda, em uma grande produção: Miro fotografava ao vivo os looks que entravam na passarela (e eram reproduzidas em tempo real em um telão) e Paulo Borges dirigia a cena e as imagens devem virar uma exposição. A plateia ficou de frente ao estúdio montado com objetos como sofá, cadeiras, mesa de madeira e bancos, que iam sendo colocados de acordo com o que Miro indicava.


Mais uma vez utilizando a beleza e o talento de suas modelos de confiança, como Marina Dias e Talytha Pugliese, Villaventura apresentou uma coleção estonteante, com vestidos cheios de tramas, texturas e os volumes característicos do seu trabalho. Villaventura mais uma vez mostrou seu rico trabalho de moulage e construção de looks a partir de tecidos com nervuras e bordados, alguns com crina de cavalo. Vestidos lindos, que certamente estiveram entre os mais criativos e inovadores do evento. Um artesão único da alta costura brasileiro!

 
BIS – Beleza, Inspiração e Simplicidade!
Marilene Hannud

(*) fotos retiradas da internet e de mídias sociais das marcas citadas.

A crise, o setor de moda e a criatividade como oportunidade

Para quem anda pela Oscar Freire ou alguns dos shoppings centers de São Paulo, é impossível não reparar: a crise vem deixando, na forma de lojas fechadas, suas pegadas no mundo da moda. Só na badalada ruas dos Jardins, coração da moda no Brasil, o número de lojas fechadas passa de 70. Nada mais natural para um país que vive um cenário de juros e inflação altos, além de desemprego elevado, o que joga o consumo para baixo.
Não é novidade que o varejo – que inclui obviamente o setor de moda – é um dos mercados mais afetados pela crise econômica. Em 2015, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as vendas caíram 4,3% frente ao ano anterior. A virada do ano não trouxe novidades: em janeiro, o volume de vendas recuou 1,5% na comparação com o mês anterior, maior retração para o período desde 2005. Com o resultado, o comércio acumula queda de 5,2% em 12 meses. Para piorar, frente a janeiro de 2015, a diminuição verificada foi de 10,3%, a maior da série histórica do estudo, iniciada em 2001.


Como se houvesse notícias piores, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) divulgou ontem números ainda mais sombrios. Segundo a entidade, o volume de vendas do varejo deve recuar 8,3% este ano. Além disso, o total de trabalhadores formais do setor deve cair 3,3% até o fim do ano, o que representaria algo em torno de 253 mil demissões. Caso as previsões se confirmem, será a mais intensa queda no número de vagas desde 2004.

As estimativas são influenciadas por fatores ligados ao consumo, que tem previsão de retração. Renda do trabalhador em queda, juros ainda elevados, crédito restrito e alto patamar de endividamento das famílias não estimulam novas compras, explicou o economista da CNC, Fabio Bentes. “São fatores que devem permanecer no cenário por algum tempo e de difícil resolução no curto prazo”, disse Bentes.

Lá fora a maré também não anda tão para peixe assim. A queda da demanda chinesa, o dólar fortalecido frente a outras moedas e até mesmo os ataques terroristas em Paris transformaram 2015 em um ano complicado para marcas de luxo renomadas, como Prada, Burberry e Richemont (proprietária da Cartier). As ações da Prada, por exemplo, tiveram baixa recorde no dia 16 de dezembro do ano passado, o que levou a grife italiana a reduzir a intensidade da inauguração de lojas e a cortar custos este ano, bem como a lançar produtos mais baratos.

Oportunidade


Nem tudo parece, entretanto, dor e sofrimento no setor de moda. É possível, com criatividade e bom atendimento, escapar desse cenário recessivo. Falo com conhecimento de causa, pois quando tive meu atelier o Brasil era um país em crise constante. Por isso, no meu negócio, fazia questão de ter um atendimento personalizado com minhas clientes. Pesquisava muito as tendências internacionais para criar as roupas bonitas e inovadoras. Além disso, estava sempre em busca de bons e mais fornecedores.


Hoje, com a internet, é possível ser criativo – e falo de criatividade em tudo, no atendimento, no marketing e na área comercial – com ferramentas modernas, muitas delas gratuitas. O e-commerce está aí para provar que não é preciso ter ponto de venda para conquistar os clientes. O Facebook e o Instagram nos mostram que existem canais de comunicação gratuitos muito efetivos. O mundo virtual escancara que há um caminho para fugir da crise atual.

Outro dia li uma matéria sobre duas empresárias que criaram uma loja multimarcas de roupas femininas plus size. Estão indo muito bem, faturaram R$ 3 milhões em 2015 e preveem chegar a R$ 5 milhões este ano. Já a Renner apostou na organização das lojas, com menores filas para pagar, e agilidade no lançamento de produtos para escapar da crise. Com isso, conseguiu elevar a receita líquida no ano passado. São ideias simples, mas que podem fazer a diferença.


No cenário externo, é cada vez mais comum ver grandes grifes apostando nas vendas pela internet, principalmente de acessórios. Gigante do segmento de luxo, o grupo LVMH – dono das marcas Louis Vuitton, Fendi, Donna Karan, Givenchy, Kenzo e Marc Jacobs, entre outras – contratou um ex-executivo da Apple para comandar sua área digital, o que indica que a empresa vai investir muito forte na internet. Uma coisa é certa: há um grande caminho a se trilhar, mas o foco dessas empresas deve se concentrar na experimentação, em proporcionar uma experiência virtual de compra cativante e mais interessante.


É claro que a crise assusta, mas bons empreendedores são aqueles que demonstram resiliência e transformam os obstáculos em oportunidade. Aproveito para relembrar dicas para driblar a crise que dei em um post do início do ano:

  1. Criatividade, seja nas criações, como no atendimento ao cliente;
  2. Marketing é investimento; não é custo;
  3. O mundo digital traz muitas possibilidades: e-commerce neles!
  4. Para encantar um cliente, não basta pensar nele, e preciso pensar como ele;
  5. Você não escolhe o cliente, é ele quem o escolhe;
  6. Na hora da compra, o que conta é a percepção do cliente, e não a sua;
  7. Se a sua empresa pensa diferente do mercado, mude a sua empresa.


BIS – Beleza, Inspiração e Simplicidade!
Marilene Hannud

(*) Imagens retiradas da internet. Foto da loja é do site http://onegociodovarejo.com.br/ – não havia indicação de crédito.

 
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